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Um ano bom para a acessibilidade Web no Brasil

Passei alguns dias fazendo um levantamento de ações e atividades relacionadas a acessibilidade na Web nos últimos anos e posso afirmar que 2014 foi um ano muito bom. Considerando ações desde 2012, quando criamos nosso GT de Acessibilidade na Web, foi uma tremenda evolução. Esse grupo, que foi criado para discutir e articular ações em favor de uma Web acessível para todos, hoje conta com mais de 120 especialistas em acessibilidade. E foi com a ajuda desse grupo que diversos projetos tornaram-se realidade.

A primeira vitória foi a aprovação do documento WCAG 2.0 como uma tradução autorizada pelo W3C. O documento que foi traduzido inicialmente pelo saudoso prof. Everaldo Bechara foi a base para a revisão do grupo de especialistas, que debateu e discutiu termos e as melhores formas de abordar determinadas terminações ou especificações. Hoje o documento faz parte da base de dados do W3C Internacional, e é a primeira tradução autorizada para português do Brasil, e pode ser referenciado para políticas de acessibilidade para websites.

Ainda em 2014 fizemos o lançamento em conjunto com o Ministério Público de São Paulo do primeiro fascículo da Cartilha de Acessibilidade na Web do W3C Brasil (PDF). A publicação dessa cartilha mostra que a acessibilidade vai além de questões técnicas, e que o cidadão comum que não entende nada de código deve ser orientado sobre seus direitos no acesso a conteúdos digitais na Web.

E para finalizar o ano, tivemos a cerimônia de premiação da terceira edição do Prêmio Nacional de Acessibilidade na Web. É inegável perceber que a cada ano os projetos evoluem e mostram o quanto a preocupação com a acessibilidade na Web vem crescendo. Dentre os vencedores está um Website acessível de busca por postos de saúde (http://www.saudeacessivel.com.br), que utiliza dados abertos para localizar o posto mais próximo e comandos de voz para navegação. Também foi premiado o Projeto de Acessibilidade Virtual do IFRS, um grupo com o objetivo de disponibilizar soluções digitais acessíveis para a Web e um plug-in para navegadores que auxilia pessoas com dislexia no acesso a páginas Web, o WebHelpDyslexia.

E por último, fico feliz em anunciar minha participação no Working Group do W3C Internacional, o Education and Outreach Working Group. Esse grupo é responsável por desenvolver estratégias e materiais para aumentar a conscientização da necessidade de acessibilidade Web e educar a comunidade sobre soluções para a acessibilidade Web. Espero poder contribuir e levar a nossa realidade para a discussão global de ações em favor da acessibilidade na Web.

Ainda temos muito trabalho pela frente e muitas barreiras para derrubar para termos uma Web efetivamente acessível e que não crie barreiras para seus usuários. Fico muito feliz por poder trabalhar com tantos especialistas e conhecer tanta gente nova engajada com o tema da acessibilidade. Seria injusto citar nomes, mas meus sinceros agradecimentos a todos os membros desse GT.

O ano de 2014 foi um ótimo ano para a acessibilidade na Web, e espero que o ano de 2015 seja ainda melhor. Que venha 2015 muito mais acessível que 2014.

Dado pra todo lado!

Open Data é um tema que está há muito tempo na crista da onda. Faça uma busca pelo tema no Google e você vai encontrar uma infinidade de notícias impressionantes e fresquinhas sobre o assunto, deixando a todos boquiabertos com as novas possibilidades de uso daquilo que os seres humanos mais produzem depois de lixo: dados.

No lançamento do W3C Brasil, em 2008, o principal tema era este mesmo: dados, só que abertos e pra impulsionar o governo a melhorar as suas práticas de e-gov. De lá até aqui destravamos alguns badges: temos um site de dados do governo que nasceu de modo colaborativo, um portal que é filho único na América Latina sobre o tema, ajudamos a formar comunidades e também a construir publicações em parceria com várias entidades importantes, da transparência e similares, estamos promovendo abertura de dados em várias instituições, visando mostrar na prática uma idéia que também circula bastante: a de que dados precisam pertencer à uma cadeia de valor para gerar valor econômico.

Além disso, gostamos muito de eventos sobre o tema e também temos o costume de promovê-los, assim como apoiamos (boas) iniciativas de uso de tecnologias padronizadas para dados que agregam valor econômico, social e porque não, ao camarote.

Acontece que o mundo hiperconectou-se exponencialmente nestes últimos cinco anos. Culpa dos dispositivos que, de tão pequenos, caminham junto conosco: smartphones e tablets.

Eles funcionam como pequenos coletores de dados, nos cultivando como boas sementes de informação para um mundo mais colaborativo (será?). Isso é só o começo de um sistema complexo de redes de coleta e uso de dados que deve existir para melhorar nossa vida em sociedade. Ok, não é nada como a invenção da prensa, mas tem potencial pra ajudar.

O único problema desse contexto todo é que a Internet é um vasto espaço. Essa hiperconexão trouxe também a necessidade de arrumarmos um jeito de facilitar a vida das máquinas, que precisam processar o conteúdo disponibilizado por vários sistemas de modo a permitir cruzamentos interessantes e ligações automáticas entre conceitos.

Os modelos de coleta e distribuição de dados nem sempre prevêem integração e isso promove silos de dados isolados, desperdiçando potencial de uso e aproveitamento deste valioso recurso. É como seu eu deixasse uns tomates estragarem na geladeira enquanto um vizinho está fazendo macarrão sem molho.

A Web Semântica, junto à tecnologias da OpenWeb, é a proposta do Tim Berners Lee pra resolver esse problema. Batizada de The Next Web, a proposta é usar a Web como plataforma para cruzamento, interligação, interconexão, acervo, uso, reuso, mixagem e o que mais inventarem com dados que,  – aí sim – podem ser batizados de ABERTOS.

Então, não adianta nada publicar documentos em .pdf ou .xls, sem dizer para as máquinas que processam tudo algumas informações sobre estes dados: de onde vêm, a que se referem, quando foram coletados, que tipo de licença possuem, etc… Chamamos isso de metadados: os dados dos… dados. Também precisamos explicar melhor o sentido das coisas para as máquinas, que ainda são mais burras que nós. Pra isso, temos os vocabulários, base para as Ontologias.

Existem mais padrões pensados exatamente para isso: tcharam! O W3C tem um espaço só pra lidar com essas belezinhas. É o Data Activity, que reúne iniciativas que pretendem impulsionar o uso da Web para que seja usada como uma plataforma inteligente de integração de dados e não apenas como um sistema de distribuição e coleta de recursos. Nesse contexto, a conclusão é precisamos de mais publicadores de dados integrados prontos para a Web do futuro.

Após perceber a necessidade de impulsionar a publicação de dados na Web o W3C lança um novo grupo de trabalho, que pretende produzir guidelines para facilitar a publicação de dados para desenvolver o ecossistema de dados na Web: o Data on the Web Best Practices. O grupo já tem mais de 30 participantes de todo o mundo e a idéia é crescer ainda mais. Temos um repositório novinho pra rechear de vocabulários e guidelines no GitHub, além de uma wiki que vai ser recheada de recomendações do W3C, como padrões Web, em 2016.

Ah! Eu sou uma “chair” desse grupo de trabalho, junto com a Hadley Beeman, do Governo britânico e o Steven Adler, da IBM Data.

Este post é um convite pra todo mundo que não quer mais brincar de reinventar a roda e está afim de inventar novos jogos com ela. Saiba mais clicando aqui ou mande um email para w3cbrasil (at) nic.br – e vamos publicar dados abertos!

Homenagem ao mestre – MAQ

Foto de Reinaldo Ferraz e Marco Antônio de QueirozDemorei um pouco a escrever esse texto em homenagem ao grande pioneiro da acessibilidade na web, mas não gostaria deixar este ano sem publicar algumas palavras para homenagear uma das pessoas que mudou minha vida. O grande mestre MAQ, que nos deixou em julho deste ano.

Me apaixonei pela acessibilidade na web da mesma forma que muitos outros: Assistindo ao vídeo “Acessibilidade na Web – Custo ou benefício?“. Conhecer o MAQ pessoalmente foi uma das minhas maiores alegrias. Assisti diversas palestras e pude participar com ele desse belo movimento de expandir a discussão da acessibilidade na Web.

O MAQ tinha uma participação muito ativa na comunidade, especialmente nas listas de discussão que ele participava. São diversas, todas ativas e em grande parte delas tive o privilégio de acompanhar as discussões. Ele costumava responder todas as mensagens, muitas delas com bom humor e bem incisivo nos debates sobre acessibilidade, mas sempre com muito carinho. Essa era a marca do MAQ.

Também tivemos o privilégio de contar com a participação do MAQ em praticamente todos os projetos relacionados a acessibilidade na web dentro do W3C Brasil. Ele tinha paixão por aquilo e participava, tanto presencialmente como online, de forma muito contundente e precisa. Sua obra vai ficar para a história do desenvolvimento web. Seus sites como o Bengala Legal e o Acessibilidade Legal, artigos e vídeos fazem parte desse enorme acervo que temos hoje de material para tornar a Web acessível. Graças ao MAQ, acessibilidade na Web se tornou popular.

Foi uma enorme honra ter presenciado o MAQ ter ganho o Prêmio Nacional de Acessibilidade na Web (todos@web) em 2012. Isso é o reconhecimento do trabalho pioneiro que foi feito em todos esses anos de fomentar a acessibilidade na Web. Com certeza a grande maioria das pessoas que trabalha ou trabalhou com acessibilidade na Web já passou pelos posts, dicas, comentários e e-mails do MAQ.

Estamos na fase final da segunda edição do Prêmio Nacional de Acessibilidade, com inscrições abertas até o final do mês. Tenho certeza que a comunidade de desenvolvimento web vai fazer desse prêmio um grande momento, para lembrar e homenagear a pessoa que começou a trilhar os caminhos da acessibilidade na Web no Brasil.

Gostaria de compartilhar esse momento tão belo que foi a cerimônia de premiação do Todos@web, na qual o MAQ é premiado por todo o seu trabalho.

Link para o vídeo no YouTube

Acredito que a comunidade de desenvolvimento web brasileira continuará seguindo os ensinamentos do grande pioneiro da acessibilidade na web. Descanse em paz, Mestre.

Open Data on the Web: Workshop sobre Dados Abertos do W3C

Nos dias 23 e 24 de abril aconteceu em Londres, no Google Campus, o Workshop do W3C sobre Dados Abertos. Organizado pelo Phill Archer, em parceria com o recém lançado Instituto de Open Data (ODI) e a Open Knowledge Foundation, o evento teve como objetivo discutir, alinhar e pensar estratégias para o futuro do OpenData no mundo.

O primeiro painel já aconteceu “quebrando tudo”. Foram apresentados 4 papers, do governo britânico, do governo holandês, de uma pesquisadora da UNDP e de um pesquisador da IBM.

O tema foi “Open Data: Promessas e expectativas”

O primeiro a falar foi o John Sheridan, que é o Head of e-services no Departamento de Informações Públicas do Governo Britânico (OPSI). A fala dele foi toda centrada na idéia de que o movimento de OpenData e governo digital ainda está no começo. Fez uma comparação com a revolução industrial e defendeu que todos ainda estão tateando em como lidar com dados e em como trabalhar uma cadeia para eles, seja envolvendo governo ou não. A parte mais legal foi quando ele disse os governos só soltam dados para hackatons ou para aparecer na imprensa, mas esquecem de manter a cadeia de abertura de dados sustentável. Ele contou que o trabalho dele é garantir, através de leis e de práticas, realizadas ao MESMO TEMPO, que os dados sejam confiáveis (API’s abertas e certificadas) e contínuos (coleta estruturada, pensando na abertura desde o começo)

Mais: ouça aqui um podcast com o cara falando sobre isso.

A segunda fala foi da Millie Begovic Radojevic. Ela trabalha para as nações unidas e trouxe um experimento muito interessante com dados do Banco Mundial. Ela (que fez o PHD dela em análise de redes na internet) usou o Tulip, um software que ajuda no desenho de gráficos de relações e, cruzando dados da UNDP com os do Banco Mundial usando phyton para otimizar, conseguiu traçar informações variosas pro trabalho dela com nações em desenvolvimento. Nos slides dela, mostrou alguns exemplos que comparam o Brasil com a Venezuela e outros países, mostrando quantas empresas costumam receber financiamento para construir infraestrutura. Os resultados, que a gente que é brasileiro, já conhece muito bem, são impressionantes porque deles pode-se concluir muita coisa, além de utilizar como base para políticas de desenvolvimento, em termos de foco e gestão de recursos para países.

Mais: Aqui tem um post dela explicando tudo sobre o projeto.

O terceiro foi o Tim Davies. Ele atualmente é coordenador de pesquisa em Open Data na WWW Foundation. A apresentação dele é sobre como medir e observar para comprovar os impactos do Open Data na vida das pessoas. A preocupação dele é o uso do open data para solucionar problemas reais. O objetivo do projeto é pesquisar as diferenças de impacto e de contexto que existem entre os principais países do mundo para ajudar o movimento de Open Data a se tornar mais efetivo para os cidadãos e governos.

Mais: O blog dele é bem legal. Um dos projetos de pesquisa liderados por ele propõe criar padrões mundiais para contratos. É o Open Contracts, que faz muito sentido: em um mundo globalizado onde várias empresas prestam serviços para vários governos do mundo, nada melhor que padronizar para facilitar a prestação de contas e transparência envolvendo estes contratos.

O quarto speaker foi o Paul Suijkerbuijk, que é o Project Lider no portal de Open Data da Holanda e Ministry of Internal Affairs/KOOP. Falou sobre confiança nos dados que estão sendo abertos e sobre a pertinência e relevância desses dados perante as pessoas que vão usar esses dados. Explicou que a estratégia que eles tem utilizado para tentar mostrar para os empresários que os dados abertos pelo governo tem valor econômico e também social é agregar valor aos dados através da Linked Data iniciative. Também pretende, com o projeto de dados linkados fazer com que o próprio governo perceba o valor da abertura de dados. Eu achei surpreendente o engajamento e conhecimento técnico do ministro. Realmente ele sabe do que está falando e entende as soluções que a equipe dele está adotando. Achei genial.

Mais: site Open Data NEXT (Netherland)

O ultimo dos palestrantes que abriram o primeiro dia de Workshop foi o Bob Schloss, da IBM. Por um acaso descobri depois que ele também está envolvido com o grupo que coordena o ManyEyes, da IBM.  e isso faz todo sentido porque ele apresentou três princípios que a pesquisa dele tem como norte para o trabalho com dados abertos que focam justamente no usuário dos dados:
1. Incentivos: muitos dados disponíveis, de várias áreas, de maneira acessível e disponível, para motivar através da transparência o uso e reuso de dados;
2. Confiança e segurança na hora de garantir a qualidade dos dados. Isso significa que o governo precisa assegurar que os dados que está abrindo são realmente os dados que ele utiliza para tomar decisões, precisa garantir a anonimização das pessoas envolvidas com os dados, precisa ter boas leis para garantir que os dados sejam precisos e que os cidadãos não possam criar uma onda de processos contra os governos, indagando sobre a natureza ou qualidade ou especificidade dos dados, (no caso brasileiro, duvido que algum cidadão vá gastar sua vida entrando com um processo contra o governo com relação à dados abertos, mas…)
3. Deixar claro de onde vem os dados pra que a política de uso e reuso não resulte em problemas jurídicos e insegurança com relação às fontes de dados.

Impressões sobre o primeiro painel: soluções palpáveis e tangíveis de governo ou instituições para sociedade (e não o contrário) – preocupações com documentação, técnica, consistência, pertinência e confiabilidade dos dados para mostrar para os prováveis clientes dos governos e entidades (cidadãos?) que abrir dados é benéfico para a sociedade como um todo. A importância de uma legislação focada e consistente em dados abertos e dados linkados, a importância dos governos manterem a mente aberta sobre tudo o que for desafio e não enxergarem como barreira. 

Logo depois o Jim King, inventor do PDF fez uma fala fantástica, que pode ser resumida em uma só frase “pdf não é um formato para dados. É um formato para documentos”. Explicou ainda que as pessoas estão acostumadas a fechar pdfs para trocar documentos pela web, mas que os pdfs podem ser construídos com metadados e, se utilizados de maneira correta, podem ajudar na transparência pública.

Mais: blog dele na adobe, só sobre o pdf

Porque a fala do Jim King foi legal? Porque nos alerta para o uso adequado das ferramentas. Imaginem se tudo o que está hoje em pdf estivesse em documentos word (e em suas várias versões diferentes). Eu não sou lá muito de defender a Adobe, mas não existe outro formato de documento que permita encapsulamento com segurança no controle de versão e imagens vetoriais (sim, o pdf guarda imagens em vetor! é xml!). Se o pdf nao existisse e não fosse tão bem documentado e desenvolvido, o mundo seria do pacote Office. Aí sim eu queria ver a galera reclamando de dados fechados…

O próximo post vai contar mais sobre o workshop. Aguardem o compilado…

O Workshop pôde ser acompanhado pelo Twitter, via hashtag #odw13, pelo canal no irc #odw, além de estar com todos os papers e apresentações disponíveis online no site do Workshop.

 

Design responsivo: foco no ser humano

Ícone de um disqueteQuando o computador tornou-se realmente pessoal, o desenvolvimento de softwares cresceu exponencialmente. Uma enorme demanda de aplicativos surgia para aquele produto enorme, com monitor CRT e velocidade de processamento muito menor do que o telefone celular que está no seu bolso.

Esses aplicativos traziam novidades e surgiam para resolver problemas que ainda não tínhamos. Com o tempo, passamos a nos familiarizar com a interface desse dispositivo mas hoje, olhando para trás, é possível entender como naquela época desenvolvíamos um software pensando na máquina, e não na pessoa que faria o uso dela.

Com base nessa pequena introdução nostálgica, gostaria de fazer uma rápida analogia sobre o desenvolvimento do design responsivo de hoje com os softwares de vinte anos atrás.

Uma das grandes balelas era que podíamos fazer várias coisas ao mesmo tempo. Essa reportagem do Fantástico de 1991 mostra bem como a indústria queria nos vender a produtividade a qualquer preço, mesmo sabendo que não fazemos duas coisas ao mesmo tempo (ou você já conseguiu escrever um texto e atualizar uma planilha sem dar um ALT/Command Tab?) ou então, quando fazemos (como assistir a dois vídeos na mesma tela) não aproveitamos totalmente seu potencial.

Já na web de hoje em dia temos que nos preocupar ao carregar uma página com conteúdo desnecessário no dispositivo móvel. Não adianta querer que nosso usuário faça diversas coisas ao mesmo tempo pois vai tirar a atenção do que é realmente necessário. Se a pessoa navega por um dispositivo móvel procurando uma pizzaria, ela quer saber o endereço, ou telefone, cardápio ou preços. Uma animação em Flash não vai ter utilidade nesse momento (na verdade, nunca teve). Burocratizar o acesso no momento que o usuário mais precisa é algo que pode custar o retorno desse usuário à sua página.

Você já deve ter lido artigos sobre as iconografias em softwares. O clássico nessa categoria é o ícone de salvar dos softwares mais antigos que era representado por um disquete. Este artigo mostra que o disquete não é o único dos problemas que temos com iconografia.

Agora olhe para o dispositivo no qual está lendo esse texto. Existe uma entrada de disquete nele? Possivelmente não e é a mesma situação quando publicamos um “clique aqui” nas nossas páginas. O termo clique veio do uso do mouse, que desapareceu dos dispositivos móveis (inclusive a seta/cursor que ficava na tela). Mesmo selecionando links e acionando dispositivos com o dedo, continuamos chamando essa ação de “clicar”. O problema é quando pensamos no “clicar”, “passar o mouse”, “selecionar” para criar aplicações que não nos permitem esse recurso. Hoje nosso contato com alguns dispositivo são as pontas dos dedos, mas sabemos que isso é apenas uma questão de tempo.

E por falar em links, antigamente todos eles deveriam aparecer na primeira página do nosso site. De preferência sem barra de rolagem, claro. Hoje estamos cada vez mais eliminando conteúdo desnecessário das páginas principais e permitindo que o usuário consiga buscar e até mesclar informações que sejam relevantes, muito melhor do que deixá-lo procurando conteúdo na página principal. Veja por exemplo como era a página principal do “Cadê?” em 2000 comparada com a interface do Google de hoje.

Todos os exemplos que citei foram para reforçar a teoria de desenvolvimento com foco no ser humano. Não sabemos quais os dispositivos que permitirão o acesso ao nosso site/aplicação no futuro. Qual foi a sua reação quando encontrou no seu analitics o primeiro usuário de tablet ou de videogame navegando na sua página? E como será a nossa reação quando encontrarmos um relógio ou uma máquina de lavar dentro das estatísticas?

Essas comparações podem parecer um pouco absurdas, mas mostram o quanto o software sempre esteve mais relacionado com a máquina do que com o usuário. Enquanto tratarmos o usuário como um operador de um sistema burocrático, teremos que escrever enormes documentações sobre como operar esse sistema, que deve ser mais intuitivo e menos complicado como eram há 20 anos atrás. E isso é o nosso dever. Transformar a experiência do usuário em nossas páginas o foco principal do desenvolvimento web.

CSS e acessibilidade na web

CSS3Tenho falado bastante da importância da acessibilidade na web, especialmente na estrutura e semântica do código HTML: cabeçalhos, tabelas, textos alternativos em imagens e muitos outros recursos para deixar o markup robusto e acessível. Mas todos eles são elementos podem ser manipulados pelo CSS de uma página e por isso devemos ter certos cuidados com a acessibilidade deles.

Softwares leitores de tela já são capazes de identificar elementos de formatação visual das páginas que não foram declaradas no HTML e sim no CSS, como tipo e cor de fonte por exemplo. Por esse motivo existem questões relacionadas a acessibilidade que estão diretamente ligadas ao CSS da sua página e vão muito além do uso de cores nas suas páginas Web.

Gostaria de elencar aqui alguns pontos importantes para a criação de páginas web acessíveis voltados diretamente ao uso do CSS, mas antes de começar vale lembrar da máxima de sempre separar as camadas de estrutura (HTML) da apresentação (CSS) da sua página web. Faça toda a formatação visual/layout dentro do CSS e deixe o HTML para a estrutura do seu documento.

Contraste

Sua paleta de cores deve prever o contraste adequado entre os elementos da página, e tudo isso deve ser considerado no seu CSS. Fundos e elementos devem um contraste de pelo menos 4,5:1 para uma visualização adequada. O E-mag publica em sua última página uma tabela de referência para textos em preto ou branco com fundos coloridos que auxilia muito essa tarefa.

Pseudo elementos :before e :after

Servem para inserir conteúdo adicional antes e depois de determinados elementos em sua página web via CSS. Esse recurso deve ser utilizado com cuidado pois nem todas as tecnologias assistivas/leitores de tela conseguem ler os conteúdos inseridos antes ou depois do texto. O ideal é utilizar pseudo-elementos apenas para uso estético e design e não para inserir conteúdo importante da sua página web. Existe um ótimo artigo da Lucica Ibanescu explicando e mostrando como os leitores de tela interagem com pseudo-elementos.

Links

É importante que o seu usuário saiba que aquele texto em destaque é um link e não precise ficar vasculhando a página para procurar um texto com link para outra página. Jacob Nielsen publicou em 2004 um artigo com orientações para a criação e customização de links em sua página, como por exemplo não sublinhar textos que não são links e usar cores diferentes para links visitados.

Convulsões

O WCAG 2.0 deixa bem claro que devemos ter cuidado para não criar conteúdos que possam causar convulsões em usuários com fotossensibilidade, como telas que piscam muito rápido ou efeitos luminosos estroboscópicos. Com a possibilidade de fazer animações em CSS3, essa recomendação também serve para a criação de efeitos nas folhas de estilo.

Conteúdo invisível

Existem diversas formas de esconder o conteúdo de uma página web. Alguns deles podem ser acessados por tecnologias assistivas por isso vale a pena verificar se o que você quer esconder em sua página deve ou não ser lido por softwares leitores de tela. Este artigo de Jonathan Snook explica bem cada uma das técnicas.

Foco nos elementos

Localizar onde está o foco em uma navegação via teclado de uma página cheia de links é uma tarefa complicada quando o foco não dá destaque para o elemento selecionado. Destacar o foco dos elementos beneficia não só pessoas que navegam por links mas auxilia o preenchimento de formulários, facilitando a localização do foco em determinados campos.

Viu como acessibilidade no CSS vai muito além de questões com cores? Posicionamento de elementos, tamanho de fontes e linhas também devem ser considerados no seu projeto web. Vale lembrar que hoje desenvolvemos pensando em uma plataforma da web, a Open Web Platform e não somente no HTML5 ou no CSS3. A Web de hoje vai muito além do código HTML e sua acessibilidade deve ser ampliada para toda a sua plataforma para que a web seja efetivamente para todos.

Aos mestres com carinho

Foto de Reinaldo Ferraz, Luli Radfaher, Yasodara Cordova e Valessio Brito na Webbr 2012O ano de 2012 ficou marcado para o meu histórico profissional. Nesse ano pude perceber como a comunidade web é unida e como as pessoas que me inspiraram a seguir esse caminho estão mais próximas e acessíveis do que eu poderia imaginar. Esse ano foi um ano de grandes realizações: Prêmio Nacional de Acessibilidade, criação do Grupo de Trabalho de Acessibilidade na Web, Conferência Web W3C Brasil, TPAC, Participação em diversos eventos e muitas outras conquistas, mas a maior delas foi trazer para perto do W3C Brasil os grandes nomes que inspiraram minha vida profissional.

Meu momento “Epic Win” foi conhecer pessoalmente e trocar algumas palavras com Sir Tim Berners-Lee, o criador da Web. Em uma conversa de alguns minutos conseguimos falar sobre WWW2013, Rio de Janeiro e sobre coisas que ele esperava da conferência e desse país que ele já visitou algumas vezes. Foi ótimo conversar com o homem que criou esse universo chamado web, e que sem sua criação eu provavelmente  estaria trabalhando fazendo CD-Roms interativos utilizando Director.

Gostaria também de falar sobre algo marcante na Conferência Web W3C Brasil 2012. Essa conferência tem a cara da comunidade de desenvolvimento. Todos os nomes envolvidos na organização e nas palestras são consagrados no mundo do desenvolvimento, mas eu gostaria de comentar sobre a importância do Keynote Speaker da conferência.

Lembro no meu início de carreira, em meados do ano 2000 quando eu ia assistir aos tradicionais “Encontros Nacionais de Webdesign” para ver o que os grandes nomes ligados a Web estavam fazendo. Eu já tinha assistido pelo menos duas palestras do Luli Radfaher, que no início dos anos 2000 já tinha escrito dois livros sobre design para Web. Chama-lo para participar de uma conferência do W3C Brasil foi um marco na minha vida e prova como a Web é capaz de nos aproximar das pessoas que nos inspiram.

Por falar em livros, não posso deixar de citar o grande dinossauro da Web. Foi nesse ano que eu conheci pessoalmente o Maujor na BrazilJS. Bater um papo com o homem que escreveu os livros que praticamente todos nós desenvolvedores lemos durante a nossa carreira foi incrível. Os livros do Maujor sempre foram como aquelas cartilhas básicas que todos devem ler antes de entrar para a escola. Além de um grande escritor e conhecedor da web, é uma figura sensacional. Fiquei extremamente feliz em participar de um vídeo especial de final de ano na sua presença (e de outros grandes nomes da Web).

Usei muitas referências da Web para estudar e aprender um pouco mais sobre desenvolvimento. Lá pelo ano de 2004, enquanto eu desenvolvia aquele monte de páginas em tabelas  encontrei um website de alguém que convertia sites  para o novo conceito (na época) chamado Tableless, e que também publicava artigos sobre Web Standards. Hoje o Tableless é uma referência em padrões web e ser convidado pelo Diego Eis para escrever posts para esse site, que ajudou a construir minha carreira, é uma honra.

Outra grande referência da qual pude fazer parte foi o IMasters. Lí muitos artigos e discuti nos fórums desse site nos primórdios da internet enquanto estudava para trabalhar com Web. Hoje também tenho textos publicados lá e uma ótima parceria com todos.

Mas acho que a grande vitória do ano foi aproximar mais a comunidade de desenvolvimento ao W3C Brasil. Eu poderia citar uma lista enorme de pessoas que trabalharam junto conosco nos Grupos de Trabalho, na participação da Webbr, nos eventos dos quais participamos e nos diversos projetos que fizemos em conjunto nesse ano, mas esse post ficaria gigantesco. A essas pessoas, que também chamo de mestres, também dedico esse post com muito carinho.

Creme de papaia e Geolocalização

Foto do detalhe de um mapaEu não sou um grande apreciador de doces, mas uma das minhas sobremesas preferidas é o popular creme de mamão papaia com licor de cassis. Sempre achei que essa era a combinação perfeita para uma sobremesa, especialmente no calor. Mas o mamão papaia é um grande injustiçado. Se você perguntar para qualquer pessoa o nome de uma sobremesa feita com mamão papaia, com certeza a grande maioria vai dizer “creme de papaia com licor de cassis”. Falta de criatividade? Pois é. O mesmo acontece com a API de Geolocalização do HTML5.

Sim, a API de Geolocalização (documentação mantida pelo W3C Geolocation Working Group) acaba sendo sub-aproveitada em diversos projetos. Faça pesquisa rápida no escritório ou uma busca pelo Google que você vai se deparar com uma grande quantidade de exemplos utilizando Geolocalização baseadas simplesmente na interface do Google Maps para obter sua localização atual. Uma ótima utilização da API, mas não a única.

Da mesma forma que existem diversas de receitas de sobremesa utilizando mamão papaia, existem diversas aplicações interessantes para o uso da API de Geolocalização. Basta exercitar a criatividade. Não estou dizendo que uma aplicação que identifica minha localização seja inútil. Pelo contrário. Consigo identificar serviços e estabelecimentos próximos de forma muito precisa. Mas podemos ir um pouco além.

Veja este exemplo de Trip Meter. Utilizando a API de Geolocalização você consegue identificar sua localização inicial e comparar com a localização final e ainda incrementar com o tempo percorrido, pontos turísticos interessantes, etc. Nesse mesmo exemplo, você pode fazer um cruzamento de dados e calcular a previsão do tempo da cidade que você está passando nesse exato momento. Muito útil para acompanhar todo o seu itinerário de viagem.

Mas e no meu dia-a-dia, como fazer uso da API de Geolocalização de uma forma mais útil? Bem, você pode criar um website de venda de produtos que pode utilizar a localização do usuário para determinar o custo do frete, ou um conversor de moedas extrangeiras por exemplo. Pode ainda criar um sistema para verificar disponibilidade de vagas em hotéis ou aluguel de casas conforme a localização do usuário. Pode parecer estranho uma pessoa chegar a uma cidade sem ter hotel reservado, mas não é. Uma pesquisa feita em 2010 pelo site MalaPronta.com mostra que 67% dos usuários do site fazem a reserva do hotel com menos de 30 dias de antecedência. Já uma pesquisa feita pelo website Trip Advisor aponta que grande parte de seus usuários utilizam dispositivos móveis para planejar suas viagens. Ainda sobre viagens, outra pesquisa mostra que hospedes preferem Wifi do que qualquer outro serviço do hotel. A internet móvel possibilita aplicações inimagináveis na web.

E como anda o suporte a API de Geolocalização nos dispositivos? Bem, seu status atual de Canditata a Recomendação no W3C pode dar uma idéia. Fazendo uma rápida pesquisa pelo CanIUse.com podemos ver que mais de 80% dos navegadores pesquisados dão suporte a API (inclusive os browsers de dispositivos móveis). Mas e sobre a minha privacidade? A especificação é bem clara: User agents must not send location information to Web sites without the express permission of the user. A escolha de permitir ou não o compartilhamento da sua localização está nas mãos do usuário.

Fazer uso dos recursos do HTML5 é muito mais simples do que se imagina. Com um pouco de JavaScript você pode começar a brincar e fazer experimentos com essa API identificando latitude, longitude e integrando com o Google Maps para começar. Esse é apenas o primeiro passo.

Você vai ver que utilizar a API de Geolocalização do HTML5 é mamão com açúcar (Desculpe. Não podia deixar esse trocadilho fora do post).