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Meus livros não cabem na Web

Interrompi ao meio a leitura do último livro que ainda se encontra em minha mochila. Não foi possível conciliar minhas atividades nas quais estive envolvido durante a última Campus Party. Nós da equipe do W3C Brasil fomos convidados para curadoria do palco que recebeu os debates da Campus Fórum. Conseguimos articular diversos painéis  que foram bastante concorridos, apesar de alguns colegas nos lembrar que escolhemos temáticas, por assim dizer, diferentes e inusitadas. Além das evidentes e que se esperam de fato fossemos nós a tratar, como as novidades do HTML5, a Web Semântica e o futuro da Web; desta feita quisemos também explorar outros assuntos, como o livro e a leitura na Web, a memória da Web brasileira, a Web e a democracia.

Compartilhei essas atividades com meus companheiros e fui escalado para mediar alguns debates com nossos convidados e campuseiros que por lá se achegaram. Ótimas conversas e repercussões significativas. Mas como boa parte dos painéis foram programados para as 21h45, com término previsto para as 23h, mas que terminavam bem mais do que isso, chegava em casa sempre na madrugada para, na manhã seguinte, de volta ao Anhembi, preparar-me para os outros debates. Assim é a Campus Party. E por conta disso o meu livro não teve outro jeito, ficou me aguardando na mochila. Mas sempre por perto.

Lembrei que apesar de trabalhar praticamente o dia inteiro no computador, nunca li um livro na Web. Diariamente me ponho diante de um monitor de vídeo para dar conta de infindáveis mensagens de e-mail, navegar por hiperlinks na Web, criar outros tantos, publicá-los, associar ideias e ler diversos textos. Mas não consigo reunir capacidades e esforços para ler longos textos na Web. A tela dos aparelhos digitais me dispersa em demasia e minha vista cansa de tanto receber a luz dos visores dos meus dispositivos de acesso.

Não bastasse a vista cansada, um outro motivo por não ler livros na Web é a ausência material mesmo. No caso ausência digital: nem sempre eu carrego meu notebook. Só o levo pra cima e pra baixo quando de fato necessário. E mesmo assim ele me provoca frequentes dores no ombro e torcicolos. Ainda o acho um trambolho bem pesado de carregar. Os computadorzinhos pequenininhos e levinhos ou são muito fraquinhos e irritantes para processar algumas tarefas ou são bem carinhos, muito além do que o meu bolso pode suportar. Sem esquecer as já pesadas contas de telefone e conexão que devem ser pagas todos os meses. E nesses meses todos penso o quanto é exagerado o custo que pago para me comunicar, ser comunicado e obter informação.

Não carrego o notebook, mas sempre tenho um livro comigo. Já viajei sem o notebook, mais de uma vez. Mas nunca deixo de levar algum livro. Tenho amigos que são felizes proprietários de e-readers, adquiridos em viagens que fizeram ao exterior, e eles me juram de pés juntos que leem livros nesses aparelhos. Acho curioso, mas acho difícil. Acho até que podem ser ótimas opções para estudantes acessarem a bibliografia e apostilas de seus cursos. Mas o meu livro na minha mochila ainda não cabe nesses aparelhos.

Gosto do meu livro impresso. Capa, lombada, contracapa, orelha, páginas. E um marcador para indicar onde parei a leitura. Meus livros têm cor, textura, peso, cheiro. Estabelecem comigo uma relação de exclusividade, não só pela leitura em si com as descobertas e questões que sempre trazem, mas pela magia com que chegam a mim. Frequento algumas livrarias em minha cidade. Gosto muito da  Livraria Martins Fontes na Avenida Paulista  e da  Livraria da Vila em Pinheiros. No mínimo uma vez por semana perambulo por entre suas estantes e seções. Do nada,  invariavelmente, alguns livros me chamam a atenção e quase pulam em minhas mãos. E descubro que era a leitura que precisava. A resposta às minhas indagações. O tema da conversa com meus amigos.

Não sei como isso acontece, mas acontece e fico feliz por acontecer. Minhas visitas semanais à livraria são sempre uma surpresa. Eu já descobri livros que me trouxeram luz para minhas dúvidas e agonias das maneiras mais inusitadas, como quando, por exemplo, encontro “aquele” livro na estante errada. Ponho-me a refletir: os googles da vida não conseguem me mostrar hiperlinks não indexados, mas a livraria me apresenta os livros que preciso em estantes erradas, fora de qualquer índice e organização. E sempre os encontro.

O livro na minha mochila estou quase terminando. Maravilhoso. Biblioteca à Noite de Alberto Manguel. Você pode encontrá-lo a partir desse hiperlink ou em alguma estante de uma boa livraria. Nele o autor nos conta: “Em minha juventude estouvada, enquanto meus amigos sonhavam feitos heroicos nos domínios da engenharia e do direito, das finanças e da política nacional, eu sonhava em me tornar bibliotecário”.

A Biblioteca à Noite, Alberto Manguel

Não somente Manguel,  eu também “vivo entre estantes que proliferam o tempo todo e cujos limites começam a se borrar ou a coincidir com os da própria casa”. No meu caso começam a coincidir com meu próprio eu.

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